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sexta-feira, 30 de agosto de 2013



A mulher que eu procuro

Tenho procurado por ti
em outros rostos femininos
olhos lilases de um crepúsculo distante
lábios à vela singrando meus anseios
caracóis ondulantes de folhas ao vento
teus seios, um areal de sonhos
a tua pele morena calcorreando as ruas de Espargo
nuvem  dourada ao sabor do vento
a tua fonte escura é de água cristalina


todas as mulheres trazem teus traços:
duas uvas incandescentes
duas laranjas de coroas acobreadas
duas estações ajustadas aos quadris
E o misterioso véu que cobre os teus segredos!

Todas trazem teus traços
mas nenhuma se compara ao teu encanto feminino
que faz arder o amplo estuário da paixão
como as ondas rebeldes do mar de Fiúra




domingo, 7 de julho de 2013

EU MORTO



um lugar onde o sol repousa mais cedo
um atalho por onde as lágrimas caminham depressa
um par de asas voando no escuro
uma sombra invisível inerme
meu eu que se esvai
a luz dos meus olhos que se apaga

morro com as palavras em silêncio
afogadas no lago
onde apodrecem
as minhas lágrimas de arrependimento
por ter amado uma vez na vida.


domingo, 14 de abril de 2013

O menino que atirava pedras

Quando eu era criança
atirava pedras que se transformavam em flores
em pleno voo
pedras que musicavam poemas
da terra-boa escalavrada

eu espalhava pedras desenhando quarteis
tesouros, paiol de rosas E açucenas
rendilhadas a ouro
ideograma de pedras rubicundas
substanciadas em romarias
pedras do menino fazendo arte
um horto de alma, um porto de calma

envelheci com o tempo
meus irmãos perderam-se em aventuras
o mundo continua em voltas tresloucadas E decadentes
mas as pedras incólumes
ainda lá estão E guardam a imagem
do menino que atirava pedras.

sexta-feira, 15 de março de 2013


Rosário

Enquanto esperas por mim
conta as estrelas
Enquanto a lua cresce em teu olhar 
aduba o vergel de beijos açulados
para me rasgar ao meio


E neste desejo incomensurável
de me ver perto, de nunca mais me ver
de me amar, de me odiar afanosamente
faz doer-me a alma que se esvai em cinzas

Conta as estrelas
mas não conta o teu segredo ao vento
o doce desejo de te ver em mim
mas sempre duvidosa
poluindo a terra com interrogações…


Lisboa, Março de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013


SÓS



Estávamos sós.
A madrugada uniu os nossos corpos
o amor uniu os nossos lábios
os eternos momentos que vivemos
eram gotas de ouro bordejadas de suor

a tua voz eram reguengos de luzes
ténues véus de júbilo que atiçavam meu desejo
de te amar, de te beijar
de me sentir dentro de ti

Estávamos sós.
Discutimos aleivosamente
trazendo à memória as nossas fraquezas
coroando de raiva o nosso ciúme
incendiámos a floresta encantada
infernizámos o paraíso
E, até hoje, vivemos caídos na solidão

Continuamos sós.
Presos ao corrosivo orgulho que nos esmaga
curtimos a mágoa de sermos inquebráveis
enfraquecidos E sucumbidos à nauseante vaidade
de não voltar atrás
envelhecidos
despedaçados
atropelados
 pelo ódio de não querer o que mais amamos!

Fevereiro, 2013








terça-feira, 30 de outubro de 2012

ÀS VEZES




Às vezes

Às vezes o que eu quero
é apenas um sinal que me buscas
uma mãozinha de nuvem
o teu meigo olhar insinuante
que me amas!

Não sou exigente no amor
posso dispensar o bolo mas nunca a cereja
não trocando por nada
 o pôr-do-sol dos teus lábios
o abismo que une as tuas nádegas
verdejantes E húmidas colinas  
que envaidecem o teu corpo de mulher
as algas que crescem no teu riso
o teu cabelo molhado voando na têmpera

mulher que me encolhe no olhar
que me fere de amor E me cura com beijos selvagens
com apenas um sinal faz das lágrimas ronceiras
gotas de vinho que adoçam o desejo
de te amar para sempre!




domingo, 23 de setembro de 2012








Espargos de Mim

Pensamentos estendidos ao sol
segredos que se bronzeiam espalmados
nuvens azuis de incenso
estrelas avinhadas que se madrugam pelas ruas

Espargos, minha cidade é cinderella sorrindo
cidade do sol E do vento, arengada de suor
vozes, folhas de acácia, terra dourada
aqui as nuvens são caravelas de sonhos
singramos o infinito, velejamos sobre lágrimas



Não tenho certeza de que é feito Espargos.
Talvez de gemidos dos que trabalham a terra
talvez dos que edificam torres, asfaltos, poemas de orvalho
cidade com apenas um seio
que é mágico E é morro-curral!


Aqui os diamantes são os olhos que passam por mim
mulher que eu amo, revoada de anjos
aqui a melódica serenata vem dos pássaros de aço
em grandes voos que nos fazem sonhar

Espargos de versos ressequidos, do verde ausente
mas carregada de azul do mar E do céu
autêntica E única! Cidade divina!
Aqui os rios são veias de sangue
Aqui a riqueza é vontade de viver
Aqui o suor é a aroma do mar
Espargos de mim, saudade sem fim!




Poemas inéditos

a poesia escreve-se com letras conjugadas mas o bom da poesia está nos olhos de quem a interpreta