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domingo, 10 de abril de 2011

A fé E angústia







A fé E angústia
são frutos pela metade
que alimentam a alma E me lembram que sou homem
E me fazem sonhar o impossível
E me curam essa sede do infinito
E atiçam essa fome de ser sempre mais
a fé diz-me que estou perto
a angústia diz-me que ainda há muito por correr

a fé são os olhos da alma que marejam lágrimas de esperança
E a angústia o querer E não poder ter

a angústia conta os dias em desespero
a fé antecipa o pulsar da vitória

a fé E a angústia são uma mistura
de estrelas E cruzes
o agridoce que retempera a vida.




quarta-feira, 30 de março de 2011

Se





Se eu pudesse ao menos
cavalgar as colinas do teu corpo
alcançar o mundo atrás dos teus olhos
violetas marmóreas
segredos da alma estendida ao sol

se eu pudesse ser
o mar entre os teus dedos
viajar na folha que caiu do teu íntimo
E voar no azul dos teus seios

se eu pudesse ao menos
me agarrar às partículas orvalhadas
dos teus lábios em esplendor
se eu pudesse
me libertar desta solidão suspensa
sarça alourada de fogo
sonhos que pendem das calhas do meu cérebro

se eu pudesse ao menos
morrer nos teus lábios...



sábado, 5 de março de 2011

Não Sei Fingir







Sou honesto demais
acredito em tudo o que vejo


não sei fingir
não me importo com o perfume das flores
quando são belas
não me importo com a força do vento
não me importo com o rosto das gentes
cada um tem a sua vida

apesar de ser homem
nunca escondi uma lágrima
faço criancices com as minhas filhas
perco em favor dos outros
porque não sei falsear
nunca amei hipocritamente
embora inconsequente às vezes
não me importo ao que falam de mim

sou doido por tudo isso
mas sou muito feliz!


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Reencontrando-me








Reencontrando-me


Hoje não senti
aquela dor no peito
dor de não contar meus sonhos
de ninguém acreditar nos meus versos
- óbito da minha angústia


não vi o sol
não relembrei coisas tristes
não pensei nenhuma vez


Hoje eu estava muito ocupado
com outras folhagens
não chorei meu estado doentio
não falei da ferida incurável da alma
de escrever versos tristes
Hoje ausentei-me de mim
para colher as flores
nos campos férteis do meu choro


Hoje
apesar de estar só
não senti a dor da solidão
nem mágoas, nem remorsos
pois ninguém riu dos meus versos


Estou reencontrando-me.








domingo, 13 de fevereiro de 2011

MINHA DOR






A minha dor
é a ponte de contentamento



poentes que deflagram as borbulhas da alma
limbos cerosos de açucenas incandescentes
que me nasceram nas setas emproadas
semeadas nas minhas mãos terrosas

ontem
balbuciei névoas do rosto plácido
de luares em colcheias de aves em procissão
radiações do cérebro na alva gotejando
teoremas da poesia boémia E sem sal
que se perdem nos sulcos da estrada
por onde passa o meu caixão sorridente

flocos do céu, neve que cai dos meus olhos
na rua do cais contando barcos
do férreo sol dançando nas colinas tolhidas
dedos de seda ágata polida

hoje
penso que sou a voz rouca dos charcos na planura do tempo
todo o vento luzeiro em crinas de veludo
penso alvores E ogivas algemadas na folhagem dos meus olhos
pulsando o gosto azedo aguarela do meu sangue

a minha dor, ponte de contentamento
seios convexos, vielas esgazeadas
sonolência das índias retidas no meu cérebro
meu suor retemperado de lágrimas eucalípticas
esplendorosamente arquitectadas
com as mãos enlouquecidas escadas de sois
em gargalhadas obtusas esvaecidas

amanhã
espero encontrar a alegria à minha janela
espero vê-la vestida de primavera
lançando centelhas de luzes prolixas
cinzelando o meu riso adormecido E sem luz
o amanhã mora longe
contudo a terra gira à volta do sol.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

DOIS POEMAS DISJUNTIVOS



De um deus subvertido

Deus? o que é isso?
um deus impotente
um deus distante
ou uma invenção humana?

será deus um sujeito sádico
com filhos predilectos
um deus que se orgulha com a desgraça dos outros
que permite a morte de lázaro para depois se engrandecer?

Deus? o que é isso?
minha alma perdida
talhada nas taras da religião evasiva…
deus é a mentira dos séculos
anestesia bíblica para quem sofre
a piada guru de bolso inchado

não dá para entender
como ama a virgem E odeia a prostituta
como protege os profetas E rejeita o gay
como alimenta o norte E deixa morrer o oriente

se deus existe eu devo odiá-lo
com toda a força do meu viver
porque deixou morrer o meu irmão
na flor da juventude
esse deus subornado pelos sacerdotes
vendilhões de bençãos
esse deus racista E moleque
que se alegra com os pobres de espírito

não sou ateu
sou contra o estado de coisas
que esse deus permite
esse deus
que manipula a poesia
E cria aberrações como hitler
que divide a palestina
transforma um jesus o costureiro
em cristo o carpinteiro

ele quer que eu diga que é trino
ele quer que lhe obedeça com a moral escravizada
por doutrinas E dogmas
mas recuso este deus que permite que se matem inocentes
sou do contra! não posso aceitar a promiscuidade
chamada livre-arbitrio
sou do contra! Não posso adorar um deus
que mata seu próprio filho
E depois venha dizer que a culpa é de judas
que permite que a serpente evada o paraíso
E depois venha dizer que a culpa é de adão

deus omni-impotente do terrorismo
deus omni-ausente da miséria africana
deus omni-inconsciente à roubalheira sacerdotal
se tu amas a humanidade, traz a justiça para todos
ou então, que venha o dilúvio de enxofre!!!




Vivendo por Fé

Senhor
se viver contigo
significa afronta E perseguição
dá-me forças para suportar
se tenho que me submeter
à cínica verborreia dos homens do púlpito
dá-me a Tua graça para resistir
se tenho que me expor
à ignomínia na feira do sarcasmo
põe em mim a Tua mão consoladora

Senhor
se o caminho do Calvário é a única via
ajuda-me a lembrar sempre
que nada vai acontecer
que Tu não possas resolver!


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Se o Fevereiro quem vem




Se o Fevereiro que vem


Se o Fevereiro que vem
fosse um caminho
que se abria para mim
onde o destino fosse meus desejos

se o Fevereiro que vem
me trouxesse a resposta
a todos os sonhos que eu tive

se o Fevereiro que vem
tivesse ao menos a arte
de enxugar as minhas lágrimas
E de moldar o meu riso

não me importava
que me chamassem nebulosa
Procuraria a árvore
que daria as tábuas para o meu caixão
E fazia dela uma canoa
para navegar entre as conjecturas
as equações E inequações
que a vida inventa

não importava
que o nó da alma estivesse no dedo
que eu nascesse em todo o lado
que meus olhos fossem um estendal de luzes

Se o Fevereiro que vem
sorrisse para mim…



Poemas inéditos

a poesia escreve-se com letras conjugadas mas o bom da poesia está nos olhos de quem a interpreta