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segunda-feira, 11 de outubro de 2010







Um Poema Para Jorge Barbosa

Estou olhando o teu retrato
velho poeta, mosaico de recordações
os teus lábios ainda segredam versos na «voz íntima»
os teus olhos, habituados a contemplar
os campos despidos de verde
ainda trazem a mesma mágoa
exarada nas páginas do «Arquipélago»


Apesar da tua figura totémica de homem culto
soubeste traduzir o sentimento do teu povo
abraçaste as ilhas com os teus versos incomensuráveis


Jorge Barbosa, poeta do povo E das ilhas
estoicamente, resististe à correnteza do maneirismo
exaltando a valentia dos teus irmãos
eternizando as qualidades da terra-mãe


A tua poesia é semente de amor
lançada no coração da gente
a tua poesia é pão E água
que sustenta a alma da gente
a tua poesia é sal que retempera a esperança
de um dia ver esta terra como um imenso paraíso


Obrigado, Jorge Barbosa
por tornar a minha vida menos penosa
com a tua doce poesia, «nau» que aporta as ilhas,
«clarim da tua manhã triunfante».

quinta-feira, 7 de outubro de 2010








Gente Por Fora E Por Dentro

Um velho perguntou-me
se eu era de cá
- todos me perguntam
de onde eu vim

o mudo está demarcado
pela cor do rosto
pela aparência
pelo tamanho do bigode

o sol de cá é o mesmo de lá
meu velho
o rosto não tem alma
a alma não tem cor

conheci gente de aparência humilde
mas com o coração nas mãos
plantando flores nas janelas abertas
gente sem bigode com coração de criança
subtraíndo a tristeza dos outros

a diferença
está em ser gente por fora E por dentro
em amar aos outros
como a nós mesmos






DIDA

hoje encontrei alguém
que trazia nos olhos
a minha infância
E perguntou-me
porque ando de olhos fechados
será medo que as lágrimas se desprendam?
E acendam a memória
das ruas do meu pequeno ninho
miragens nimbadas de terra?

hoje encontrei Dida
de azul E de sonhos
driblando o destino

hoje o menino
não tinha os calções rasgados
não chupava o dedo para acalmar
a fome adesiva E resignada

Dida sorriu para mim E disse:
- o mundo adulto
é frio
calmo
E muito triste

Menina de Rembrandt








A menina olhou-me
com olhos de água
a menina de Rembrandt
de folhas no ventre
trouxe-me de novo à vida
em límpidos regatos de beijos
num aceso turbilhão de beijos

desenhaste em mim
um orvalho de sonhos
debruado de rosas húmidas
de veias cavas brincando na rede

menina a óleo
traços de mestre
sombras de sol
nódoas de sal

como os teus olhos me amam
E te abraço sedoso!

menina de Rembrandt
encosta-te um pouco mais
para me posar ao teu lado...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010







Trinta E Dois

Meus olhos em quarto minguante
no silêncio vivo
arquétipos nebulosas
que se levantam
violentamente
no meu cérebro capitulado

alguns milhões de estrelas
escondidas
na plácida retina dos meus olhos
defeituosamente lavrada
breves
dão-me conta
que sou ainda criança
apesar dos meus trinta E dois
verões estarrecidos

trinta E dois
dezembros enxertados
de foguetes E silêncios
de lágrimas E inquietações
de certezas E indefinições
sulcando a terra com raízes na mente
de poemas E grinaldas de espinhos

trinta E dois
de uma vida que eu amo de paixão
de um país que ajudei a construir
de marias palpitando os meus lábios

trinta E dois anos
que foram séculos em agonia
instantes a vapor

continuo jogando meu xadrez
colocando as pedras firmemente
tenho nas mãos o rei E a torre
talvez ganhe mais trinta E dois
a dobrar
à risca
(perdendo sempre o último lance)

escrevo a vida
à beira da estrada
luto com as palavras
na plenitude das coisas incertas

trinta E duas cabeças flutuando
trinta E dois golpes mortais
geisers de insanidade
E muito júbilo
por ter chegado até aqui!

RIBEIRA FUNDA




Como cresceste!
Como eu cresci!

Ribeira das garatujas
do sol descarado
dos barquinhos de papel
das rugas dos velhos
dos pés cozidos ao chão
formigando freneticamente
atrás de bolas de trapos


Ribeira Funda
eram tão fundos os teus sulcos
como rasgos dos meus calções
como as pieguices das moças do fontanário

Ribeira Funda
penso em ti com ternura
penso nas tuas gentes
na terra solta E poída
E orgulho-me de ser teu filho

ensinaste-me a roubar doces
deste-me o gosto pela poesia
falaste-me de uma ribeira sem água
por onde correram apenas mágoas
da pobreza de todos nós
o sémen de todos nós

hoje tens o tamanho do mundo
porque a tua gente está em todo lado

de ti saíram craques
para os relvados do mundo
pedreiros rebocando antologias para o céu
pescadores de anzóis imponderáveis
mães com lágrimas de tudo
cidadãos a tempo inteiro

Ribeira Funda
não tens culpa das desgraças
porque sempre houve ângulos para todos nós

Ribeira Funda
mesmo à distância
vejo o teu sol brilhando
vejo a tua terra batida E puída
o mesmo riso, a mesma juventude
das outras aldeias

és uma aldeia global!


Poemas inéditos

a poesia escreve-se com letras conjugadas mas o bom da poesia está nos olhos de quem a interpreta